Thursday, November 27, 2008

Outro Zé

Ensaio para a Bala Perdida
serigrafia sobre lona
(270cm X 120cm)
Adão e Eva
desenho sobre placas de cerâmica (tabatinga e tauá)
(120cm X 120cm)

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Lembro-me que o Sante Scaldaferri fez um livro sobre José Tertuliano Guimarães, pintor baiano que enxergou além das clarabóias dos ateliês parisienses, considerado o precursor do moderno na Bahia.
E aqui estou: outro Zé, também ganhador de um prêmio que concede uma estadia na Europa para estudar numa academia de arte. Parece que pouca coisa mudou desde 1932!
Como todo desconfiado, após a euforia inicial de me ver notado depois de tanta labuta (tanta noite perdida, tanta tinta gasta, tanta vontade de desistir...) reflito sobre certas convenções do “mundo da arte”. Não sou nenhum intelectual – pelo contrário, fujo dessa concepção de que todo artista visual (não é mais plástico, viu?!) deve ser um poço de teoria – portanto meus questionamentos são simplórios e peço a complacência de todos.
Interrógo-me sobre a competição envolvendo trabalhos de arte – atitude tão antiga quanto os prêmios de viagem à Europa. Acho incongruente estabelecer gradações de valor para algo tão subjetivo; tal julgamento invariavelmente passa por critérios de gosto e de tendências. Creio que o termo sorte (estar com o trabalho certo, na hora certa) pode ser bem aplicado à minha premiação. No salão que me recompensou pude apreciar trabalhos excepcionais que (a meu ver, injustamente) nem sequer foram mencionados dentre todas aquelas categorias.
No momento, estou institucionalizado (pelo menos regionalmente): tenho imagens em catálogo, meu nome saiu nos jornais, dei entrevistas... Citando Jacques Aumont, existe uma “definição institucional das artes, segundo a qual é obra de arte o que é socialmente reconhecido como tal, pelo menos no interior de um meio especializado, independente das pretensas qualidades intrínsecas do objeto-suporte”. Contudo, reforço meu antiquado romantismo ao acreditar numa alma de artista, na expressão e no sentimento, na arte “retiniana”, no valor do trabalho manual, ciente de que tudo que faço é sempre mais do mesmo.
A novidade talvez consista no meu atual sentimento de quase TERROR só de pensar em passar tanto tempo longe. Desculpem-me todos que almejaram esse prêmio, que acreditam que estudar no exterior é o grande caminho para uma carreira. Como nunca saí para além das fronteiras baianas, estou muito temeroso do que me aguarda no velho mundo: frio, poluição, o preconceito dos europeus (sou “latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”!), preços altíssimos (amigos já me alertaram para o fato de que Milão é a cidade mais cara de Itália!), desconhecimento de qualquer língua que não a portuguesa, saudades do beijú de Toínho e da farinha de mandioca de Quelêu.
Por fim, só que mais importante que tudo, a lição que aprendi com a música: o valor do trabalho conjunto. Portanto, meu enorme agradecimento a todos que me ajudaram nesses últimos tempos a realizar meus sonhos. Em ordem alfabética:
D. Nelma – por tentar entender o filho torto; Edgard Oliva– pela amizade e as lições de fotografia; Evandro Sybine – pela consciência da gravura; Ieda Oliveira – por me “botar pilha”; Lore – minha irmã, pelo exemplo de ética; Lôro – complicado como todo carpinteiro, mas caprichoso como poucos; Mestre Duda – pelo silêncio; Nelson Magalhães Filho – pelo início de tudo; PauloTabosa – pelas ótimas aulas de serigrafia; Sarah Hallelujah – pela paciência e as aulas de cerâmica; Vinícius S.A. – por me emprestar sua fiação na hora do aperto; Vanessa – por tanta coisa que seria impossível enumerar.

13 comments:

Edu O. said...

Zé, no primeiro momento é bom o sentimento de sermos a bola da vez, mas logo depois é melhor ainda sentirmos que somos o que somos e sermos "apenas" isso é o grande lance. De alguma forma é esse ser que é premiado, reconhecido... O Velho Mundo está caduco, meu caro. Estive lá e não me encantei, mas é sempre bom vivenciarmos coisas novas. Vá como se fosse logo ali e volte melhor do que foi. Embora não sermos muito próximos, fiquei feliz pra car.... qdo soube de tua premiação. Abração, meu velho. Boa viagem!

Paula Magno said...

Cê escreve bem, hein moço!
Gostei muito do texto apesar de achar que a parte que fala de tua obra que ganhou o prêmio, modesta demais. Cê sabe irmãozinho que a tua obra estava duca... como muitas outras tb mas isso não vem ao caso.
Morei em Milão e sofri apenas com o calor no verão...mas bem pertinho dali tem uns lagos incrivelmente lindos com pequenas cidades onde vivem muitos artistas e pessoas simples. è um interiorzão bem agradável. Milão fervilha arte. Muitas pessoa do mundo inteiro vão pra lá pra estudar nas escolas de artes visuais, musica, design...é uma galera estudante muito parecida com vc, Zé. Vá sem saber nada e volte sabendo muito menos rsrsrsrsrsr.
bjão.
Paula

Luciano Fraga said...

Zé, embora não seja um artista, mas na minha visão de cidadão "comum",com pequena experiência vivida, concordo plenamente com suas considerações/ponderações, preocupações.Mostrou-se consciente, equilibrado. Acho que seu ponto de vista serviu para reforçar minha condição de fã da sua arte/artista/homem. Segue em frente,"na natureza nada se perde..." boa viagem, sucesso, abraço.

Evandro SYBINE said...

Grande Zé, eu já lhe falei uma vez e repito...parabéns cara pelo prêmio que é muito merecido, pela sua luta de muito tempo que eu sei...para mim foi um prazer poder compartilhar com vc, pq tb aprendi muita coisa com a proximidade...Só não gostei de uma coisa...e vou reclamar com vc...Não é Sybilles e nem Sibine é SYBINE...Vê se tu aprende o cabra é SYBINE.

Diario do Sonho said...

palavras de um intelectual organico, que não é frio e tem o pé no chão e a cabeça nas nuvens.

vonaldo lopes mota said...

não se preocupe! milão já tá acostumada a receber craques!

anjobaldio said...

Valeu Rotieh, fico honrado em ter ajudado um dia de alguma forma. Grande abraço.

suzart said...

Meus parabens cara. Fico muito feliz por você. Aproveite bem esta viagem, ela vai te acompanhar pelo resto da tua vida.

Daniel Soto - IMRo said...
This comment has been removed by the author.
Daniel Soto - IMRo said...

Parabens Zé! Qdo te ver na EBa te dou um abraço!! Seu trabalho está muito lindo. Na 1a semana de 2009 vou no MAM com Diego RB ver suas obras ao vivo. Feliz Ano Novo!!!

Leila_FX said...

Que delícia depois de tanto tempo entrar no seu BLOG e deparar com tão ilustre notícia... Reconhecimento... Internacional que seja, mas justo porque fizeste por merecer com certeza,... Nunca tive o grande prazer de pessoalmente visitar suas obras, mas daqui de longe faço o que posso.
Que diria que cresceríamos, ficaríamos tão distantes fisicamente, mas tão perto no pensamento!
Daquela que teve o prazer de estar perto e fazer parte..
Bju!
Sucesso!

Portifólio Artístico - Nane de Oliveira said...

oi Zé:
chorei emocionada diante das suas sábias e expressivas palavras, principalmente no momento em que você descreve o reconhecimento após tantas labutas. Mas saibas que todos nós temos uma estrela e que a hora de cada um chega de acordo com os seus princípios e merecimento. Fico imensamente feliz de te ver realizando um grande passo na sua vida, mas o que me deixa mais admirada é a sua eterna humildade e o seu coração afetuoso. Continue sempre assim, e vamos torcer para que toda a nossa classe artística tenha o seu dia de estrela, mas com simplicidade sempre.
Você merece Zé.

Isadora said...

Zé DE Rocha... o seu trabalho é excelente, merece a minha admiração! Cara, sinta-se honrado, porque eu sou chata pra c... em termos de arte contemporânea. Hahaha! Já não tenho mais pudor em dizer que a maior parte (maior parte meeeeesmo) do que observo nesse meio bizarro, tiro do meu HD natural e jogo na lixeira, sem dó nem piedade. Meu cérebro tem mais o que guardar, não posso ficar atulhando-o com bobagens de artistas que buscam, desvairadamente, inventar uma nova vanguarda para adentrar a História da Arte, a qualquer custo.

"Contudo, reforço meu antiquado romantismo ao acreditar numa alma de artista, na expressão e no sentimento, na arte “retiniana”, no valor do trabalho manual, ciente de que tudo que faço é sempre mais do mesmo".

Disse tudo... Tô contigo, amigo.

Parabéns! E um grande beijo.